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Manuela Cardoso
Escrito por:

Manuela Cardoso Nutricionista; Docente de Nutrição Pediátrica; Colaboradora do Banco do Bebé

Aprender a gostar dos alimentos

É  um   dos   dramas   diários! Perante a recusa repetida em aceitar alguns alimentos desde o 1º contacto, é muito fácil acreditar que as crianças nascem com a definição dos alimentos de que vão ou não gostar. Perante isso, adivinha‐se um esforço inglório, opta‐se pela desistência, e o que se ganha em tranquilidade no imediato, perde‐se em saúde a médio e longo prazo.

É verdade que a influência genética se faz sentir nas preferências alimentares. Todos nascemos com apetência para gostar de alimentos doces e rejeitar os amargos, situação que remonta a milhares de anos atrás, em que o paladar doce indicava aos nossos antepassados que se tratava de um alimento rico em energia e o amargo podia revelar a presença de um tóxico.

Por instinto, o contacto com um paladar desconhecido e diferente do “programado”, provoca rejeição. Até aqui, precisamos de compreender, as crianças só estão a respeitar a sua natureza.

A boa notícia, é que o meio ambiente pode modular as preferências alimentares _ as mães têm total influência nisso! Tudo começa antes do nascimento: Durante o 3º trimestre, os bebés ingerem diariamente líquido amniótico, que tem o paladar da alimentação da mãe. O leite materno, que se recomenda exclusivo durante os primeiros 6 meses, assume também o paladar dos alimentos ingeridos pela mãe. Nunca a expressão “dar o exemplo” fez tanto sentido!

Sabe-se que o contacto com o maior número de paladares durante a vida intra-uterina e a amamentação parece ser o fator mais importante para a aceitação de novos alimentos, como se os bebés adquirissem uma memória de paladares. Este é só o primeiro passo de um processo longo, complexo, mas compensador, que é a educação alimentar.

Mais tarde, quando iniciam a diversificação alimentar, as crianças aprendem a associar ao paladar, o odor e a textura dos alimentos. Esta fase é de desconfiança perante o desconhecido (todas o podemos testemunhar enquanto mães), mas francamente facilitada se tiver havido contacto prévio com paladares diferentes – e aqui, mais é mesmo melhor!

alimentação bebé

Alguns autores acreditam que, em média, as crianças precisam de contactar cerca de 10 vezes com um novo alimento, para passarem a aceitá‐lo. Isto mostra‐nos o quanto a persistência pode ser nossa aliada. O objetivo é então permitir esse contacto, sem forçar, até ser naturalmente aceite.

Parece simples e até acaba por ser, quando se trata dos alimentos de que a mãe (ou outra pessoa que cuide da criança) gosta. Se pensarmos um pouco, todos nós queremos proporcionar o prazer de comer, àqueles que amamos. Aqui o padrão é o nosso paladar e, convenhamos, nem sempre é o melhor conselheiro! É muito fácil desistir de tentar, quando acreditamos que estamos a agredir as nossas crianças com um paladar que nos desagrada. Mas com a recusa, nesses casos, o que as crianças nos querem transmitir é que não têm a certeza de poder aceitar esse alimento … ainda.

Os hábitos da família (sobretudo pais e irmãos mais velhos), também influenciam a aceitação de novos alimentos, uma vez que a família é usada como modelo de comportamento _ onde cabe também o comportamento alimentar. A este nível, a experiência nos primeiros 3 anos de vida determina o comportamento alimentar na infância e na idade adulta. Foi demonstrado que apenas 3 refeições por semana em família aumentam em cerca de 24% a possibilidade de as as crianças fazerem escolhas alimentares saudáveis.

Um outro fator, não menos importante, é a emoção que se liga aos alimentos. Quem não associa odores e paladares a situações muito particulares? É aqui que entra a tranquilidade no momento das refeições, assim como outras experiências positivas. Temos assim mais oportunidades para modular o padrão alimentar.

Tal como já referido, todos nascemos com apetência por alimentos doces, não precisando de nenhum reforço positivo para os aceitar. No entanto, desde há tempos que todos perdemos de vista, os doces são associados tanto a recompensa, como a compensação ou aconchego.

Fica aqui o desafio: Vamos todos pensar numa forma de mudar gradualmente esta realidade?