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Carla Selas do Amaral
Escrito por:

Carla Selas do Amaral Arte Psicoterapeuta; Colaboradora do Banco do Bebé

Era Uma Vez


‘Era uma vez’ são três palavras mágicas que infelizmente se vão perdendo ao longo do nosso crescimento.

O imaginário dos contos de fadas, o herói que de tudo é capaz ou até a ideia de que o nosso lar pode ser construído de bolachas e chocolate é substituído pelo real do nosso quotidiano, em que os heróis somos nós na luta diária e por vezes menos positiva do nosso dia a dia.

Com a maternidade volta a ser tempo de recuperar a nossa infância, a nossa criança que timidamente se escondeu. O tempo passado com o bebé é um tempo de grande prazer, de enamoramento, aprendizagem e partilha; tempo de amor, carinho e proximidade.

São tempos de encantamento que de alguma forma reconstroem em nós a premissa da magia e do maravilhoso descritos nas histórias com um final feliz em que o personagem principal é o nosso bebé. Agora o príncipe é o bebé e tudo o que desejamos para ele é um final feliz.

Na proximidade física do bebé com a mãe, nos momentos de brincadeira, na interação da expressão visual, táctil, olfativa e auditiva estabelece-se as bases necessárias para a afeição e vinculação da relação entre mãe-bebé. É através da melodia que o bebé reconhece a voz da mãe, distinguindo-a de outras vocalizações.

A regularidade do ritmo da vocalização da mãe, a par da melodia, tem para o bebé um significado especial na construção da sua vida mental. É na repetição da melodia, bem como no intervalo-silêncio causado pelo ritmo de cada vocalização que se estabelece o sentido, a coerência da interação e possibilidade de comunicação entre ambos.

É neste momento de proximidade e afeição, que pode surgir na mãe, como tema para a expressão visual e vocal, a oportunidade de contar uma história. O ‘Era uma vez’ pode ser agora argumento para recuperar algumas das memórias da infância da mãe, sendo também um meio para estabelecer pequenos momentos de intimidade, de contenção, de relação mãe-bebé tão importantes como atrás descrito.

É nestes pequenos momentos de contato entre a mãe e o bebé que lentamente se estabelece a organização emocional, a estrutura do pensamento e funcionamento simbólico do bebé. É por isso importante investir continuamente nestas interações desde os primeiros meses de vida.

Ao longo do crescimento do bebé, poderão ser contadas pequenas histórias do imaginário infantil da mãe (ou outras), estabelecendo-se momentos de prazer, contacto e memórias que são agora importantes reviver com a maternidade e que fazem também parte dos valores, da cultura e da estrutura interna da mãe.

A pouco e pouco, ao longo do crescimento, o bebé vai necessitar de ideias para se organizar interiormente, dar sentido à sua vida e por isso é importante que através do conto de uma história, se dê subtilmente ênfase às vantagens de um comportamento aparentemente certo e com sentido.

A narrativa de uma história de uma forma afetuosa e contentora, estimula na infância a capacidade de sonhar, de fantasiar e de reforçar a sabedoria.

As histórias vão permitir à criança o estimulo da imaginação, o desenvolvimento do seu intelecto e o esclarecimento das suas emoções. É por isso importante a escolha de uma história que esteja ajustada às angustias e expectativas próprias da idade, para que na história a criança identifique as suas dificuldades e reconheça soluções para os problemas que a preocupam.

As personagens dos contos de fadas são de alguma forma exemplos de valores opostos, ou seja, são personagens boas ou más sem haver qualquer

ambivalência entre elas. Estas ajudam a criança fazer um claro reconhecimento do que é bom e do que é mau e a estabelecer para si as suas escolhas de valores e de personalidade.

As histórias da vida podem não começar com as palavras ‘Era uma vez’ ou não ter heróis vindos de outro planeta com superpoderes, mas se proporcionarmos aos nossos ‘príncipes’ bebés uma relação que estabelece confiança, amor e cuidado, eles serão com certeza mais capazes de lutar no futuro com confiança contra os ‘dragões’ que possam surgir.