Dra. Cegonha

Comer a placenta do bebé, tem benefícios?

Escrito por:

Catarina Pinheiro Médica Interna de Formação Geral

Comer a placenta do bebé, tem benefícios?

A Placentofagia é o termo utilizado para descrever a ingestão da placenta no período pós-parto. Tem havido um interesse crescente por este assunto e como tal, vamos tentar resumir os estudos científicos que existem acerca deste tema. Como é habitual, vamos tentar explicar-vos da forma mais “médica” possível, para que depois possam tirar as vossas conclusões, baseadas em factos reais e comprovados pela ciência.

Embora a placentofagia não seja permitida ou proibida a nível legal, há alguns estados nos Estados Unidos da América que proíbem a saída da placenta para fora das instalações hospitalares após o parto. Isto não acontece em Portugal, por isso é menos um assunto para nos preocuparmos hoje.

Vamos então começar pelo início e perceber o que é a placenta e que funções tem durante a gravidez.

Desenvolvimento e composição da placenta

Após a fecundação, processo em que o ovócito se encontra com o espermatozóide, há a formação de uma estrutura chamada blastocisto (já falámos um pouco sobre esta estrutura aqui). O blastocisto penetra no útero cerca de 6 dias após a fecundação ter ocorrido e começa a proliferar rapidamente, atingindo aquilo a que chamamos placenta por volta do 15º dia. O desenvolvimento da placenta estará completo entre a 12ª e 13ª semanas de gestação.

O papel fisiológico da placenta é bastante completo:

  • Respiração: uma vez que os pulmões do feto ainda não realizam a oxigenação do sangue, este tem de ser obtido através da placenta.
  • Excreção: tudo o que o bebé já não precisa, é secretado pela placenta.
  • Metabolismo: a placenta é responsável pela produção de hormonas que asseguram a sobrevivência do feto e a adaptação do corpo da mãe à gravidez e ao parto.

A composição de uma placenta considerada normal é a seguinte:

  • Peso: aproximadamente 450g
  • 234 calorias
  • 48 g de proteína
  • 4 g de gordura
  • 513 mg de sódio
  • 899 ug (microgramas) de colesterol
  • Elementos essenciais – ferro, selénio, cálcio, cobre, magnésio, fósforo, potássio, zinco e mercúrio.
  • Aminoácidos
  • Vitaminas – B1, B2, B5, B6, B7, B9, B12
  • Hormonas – ocitocina, estrogénio, progesterona, entre outras.

Mais de 4000 espécies de mamíferos ingerem a placenta após o parto, e pensa-se que apenas os humanos e os camelos fogem a esta regra. No entanto, o facto desta prática ser muito comum nos primatas, leva alguns investigadores a colocarem a hipótese desta ter sido perdida ao longo dos anos, na espécie humana.

Desde 1970 que se tem observado um crescente número de casos de mães que no

pós-parto consumiram a sua própria placenta, pensando-se que este “novo hábito” poderá estar relacionado com a procura de uma vida “mais natural” por parte de muitas famílias.

De que formas se pode comer a placenta do bebé?

Existem várias formas para se ingerir a placenta. Esta pode ser comida crua, cozida, assada, desidratada, em smoothies ou em cápsulas. A forma mais frequentemente usada é em cápsulas, após a placenta ter sido previamente cozida a vapor e desidratada. Já existem algumas empresas que preparam estas cápsulas para consumo no pós-parto.

Aqueles que apoiam a ingestão da placenta alegam que esta prática está associada a certos benefícios físicos e psicossociais. No entanto, até à data de hoje, continua a não existir evidência científica que apoie estas opiniões.

Embora se pensasse que a placenta seria uma estrutura estéril (sem micro-organismos) enquanto estivesse dentro do útero, alguns estudos já revelaram que esta tem o seu próprio microbioma (os micro-organismos “bons”), que poderá ter lá chegado através do trato gastro-intestinal da mãe. Colocamos em ênfase “dentro do útero”, uma vez que estando fora do útero, aé do conhecimento geral que a placenta se torna um tecido muito conspurcado.

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) nos EUA, um centro de referência Norte Americano, alertou para um caso em que um recém-nascido contraiu uma infeção recorrente causada por uma bactéria (Streptococcus agalactiae) após a mãe ter ingerido placenta contaminada com este agente infeccioso. Foi identificada esta bactéria tanto na placenta desidratada como no sangue do recém-nascido, no entanto não foi detetada no leite materno. Deste modo, a infeção pode ter sido contraída antes ou durante o parto e não ter sido transmitida pela mãe através do leite.

Ainda assim, o CDC defende que a ingestão de placenta deve ser evitada devido à possibilidade de ocorrer uma falha na erradicação de agentes infecciosos durante o processo de produção de cápsulas, uma vez que a placenta não é um tecido estéril.

A desidratação da placenta a mais de 54ºC reduz significativamente o número de espécies microbianas e elimina, se estiver presente, a Candida albicans, responsável pela conhecida candidíase.

Preços

Os preços em vigor para a encapsulação da placenta variam de país para país e de empresa para empresa, no entanto encontram-se preços entre os 125 e os 425 dólares. Há ainda quem opte por fazer o processo de desidratação da placenta em casa, mas devido ao alto risco infeccioso e desconhecimento pela parte de quem o pratica em casa, desaconselhamos vivamente a que tente fazer isto em casa.

Estudos, benefícios e riscos

Os profissionais de saúde têm o dever de informar as grávidas que a eles recorrem, de que a ingestão de placenta não tem suficiente evidência científica de possíveis benefícios, e informar ainda dos possíveis riscos associados a esta prática.

Vários estudos foram realizados entre 1917 e 2018 para estudar os potenciais benefícios da placentofagia. Vamos apresentá-los de forma resumida:

  • Em 1917, foi estudado o efeito da ingestão de placenta desidratada na composição do leite materno, nos primeiro 11 dias pós-parto. Chegaram à conclusão que a percentagem de lactose e proteína do leite materno aumentou após a ingestão da placenta.
  • 1918 foi o ano em que se estudou o crescimento dos recém-nascidos alimentadas exclusivamente com leite materno, em mães que tivessem ingerido placenta desidratada. Concluiu-se que o aumento de peso nos recém-nascidos era superior naqueles cujas mães tinham ingerido placenta, comparados com o grupo de controlo, onde a placenta não tinha sido ingerida.
  • Em 1954, uma cientista de origem Checa, constatou que as hormonas encontradas na placenta humana aumentavam a produção de leite em 86,2% das 181 mulheres estudadas. Esta concentração hormonal diminui substancialmente se a placenta for cozida a vapor ou desidratada. As maiores concentrações foram encontradas em placentas cruas.
  • Mais recentemente, em 2017, ficou provado que a concentração de ferro no sangue da mãe não sofreu qualquer alteração após a placentofagia, não sendo este um tratamento adequado no caso de anemia desenvolvida no pós-parto.
  • Ainda em 2017, concluiu-se que a ingestão de placenta previamente cozida a vapor e desidratada, não altera o humor da mãe, não diminui a fadiga nem o vínculo mãe-bebé em comparação com a não-ingestão de placenta.

Efeito placebo

O placebo é uma substância sem propriedades farmacológicas e que é administrado como se tivesse capacidade terapêutica. Placere vem do latim e significa agradar. Um medicamento placebo tem o principal objetivo de agradar o doente, fazê-lo sentir-se bem/melhor. O seu efeito é determinado pela satisfação da pessoa que o toma, sendo portanto uma avaliação subjetiva.

Podemos relacionar o termo placebo à placentofagia. Se a ingestão da placenta é inócua do ponto de vista médico (considerando que a preparação da placenta é feita corretamente e sem risco infeccioso) e ainda assim traz benefícios no pós-parto da mulher, uma vez que a recém-mamã se mentaliza que está bem, em recuperação e sem sintomas de depressão, porque não devemos fazê-lo? Mas por outro lado, se não tem benefícios comprovados e é uma questão de “trabalhar a mente”, porquê fazê-lo?

Sim, somos o anjo e o diabo das vossas cabeças, mas é um assunto muito pessoal e que deve ser tomado com a maior consciência e conhecimento possível.

Celebridades

Através das redes sociais, é sabido que várias celebridades, nacionais e internacionais, praticaram a placentofagia (entre elas encontram-se a Hilary Duff, Kim Kardashian e Jessica Athayde). Queremos alertar que apesar de várias caras conhecidas do público o terem feito e partilhado, não torna esta prática algo seguro ou que se deva fazer.

Comer a placenta: sim ou não?

A comunidade científica não apoia esta prática. Por um lado existem estudos que apontam para um possível benefício, no entanto, esses estudos têm mais de 100 anos e são considerados fracos.

Existem vários testemunhos de figuras públicas (por exemplo a Jéssica Athayde) que o fizeram e mostraram estar satisfeitas com o resultado atingido, não significando que é certo ou errado fazê-lo.

A decisão de fazer placentofagia é individual e deve ser ponderada sabendo todas as possíveis consequências, quer sejam elas positivas ou negativas. É preciso cada mulher pesquisar sobre o assunto, estar 100% informada e tomar uma decisão que faça sentido para si e para a sua vida e, acima de tudo, não se sentir pressionada a fazê-lo ou não.