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Catarina Pinheiro
Escrito por:

Catarina Pinheiro Médica Interna de Formação Geral

Células Estaminais | Sim ou não? | Opiniões de especialistas

Compatibilidades

O primeiro passo que se toma quando um doente precisa de um transplante é tentar encontrar alguém que seja 100% compatível. No caso da pessoa ter irmãos, existe uma probabilidade de 25% de serem 100% compatíveis. Se esta compatibilidade total não existir entre irmãos, parte-se para uma busca a nível das bases de dadores públicas. Quando ambos estes passos falham, procuramos um dador que seja parcialmente compatível, que é mais fácil de encontrar do que os anteriores (os irmãos têm 50% de probabilidade de serem parcialmente compatíveis), trazendo no entanto um risco maior de outras complicações, como a rejeição do transplante.

Estes valores indicam que não há a garantia de que as células do cordão umbilical possam ser usadas pelos irmãos da pessoa em questão.

Probabilidade de utilizar as células criopreservadas do cordão umbilical

Provavelmente já se depararam com alguma (ou muita) publicidade dos vários bancos de criopreservação de células estaminais. Normalmente, as publicidades em causa advertem que “as células do cordão umbilical podem ser usadas no tratamento de mais de 80 doenças”.

No entanto, é preciso ter um pouco de sentido crítico e perceber algumas realidades. A afirmação anterior pode muito bem ser verdade. A grande questão é que estas mais de 80 doenças são maioritariamente muito raras e cuja probabilidade de alguém até aos 25 anos ter uma delas é de 1 em cada 1700 pessoas, ou seja, 0.06%.

Existem ainda outros problemas com os quais nos deparamos quando a utilização das células criopreservadas é uma solução viável:

  • A quantidade conservada é de 50 a 200ml; isto permite fazer apenas um transplante a uma criança ou a um adulto pequeno.
  • Apenas 8-12% das amostras preservadas têm células suficientes para fazer um único transplante a um adulto de 80kg.
  • As amostras podem não ter critério para ser usadas, uma vez que a quantidade de sangue armazenado poderá não ser suficiente.

Nos dias que correm, há mais um obstáculo acrescido. Aquando do nascimento do bebé, cada vez mais são os médicos pediatras que são a favor de clampar o cordão umbilical (colocar uma pinça no cordão de modo a interromper a ligação entre a mãe e o bebé) mais tarde. Deste modo previne-se o risco de deficiência de ferro durante a infância. No entanto, este atraso na clampagem do cordão leva a uma diminuição na quantidade de sangue que pode ser criopreservada.

Por último, foram feitos pesquisas relacionadas com a contaminação das células quer em bancos públicos como em bancos privados e a percentagem de contaminação era respetivamente 0,5% e 7,6%, devido às diferentes formas de conservação das amostras.

Banco Público de Células do Cordão Umbilical

O Banco Público de Células do Cordão Umbilical (BPCCU) é um serviço do IPST (Instituto Português do Sangue e da Transplantação), e está inserido no Centro de Histocompatibilidade do Norte. Este dedica-se à receção, análise, processamento, criopreservação e distribuição de dádivas benévolas de sangue do cordão umbilical .

Foi criado com através deste despacho, tendo sido integrado no IPST em Agosto de 2012.

Este Banco tem no entanto, e muito infelizmente, as suas limitações. Existem apenas 4 unidades de colheita de células do cordão umbilical para o banco público, estas são:

  • Centro Hospitalar de São João
  • Hospital Pedro Hispano – Unidade Local de Saúde de Matosinhos
  • Maternidade Júlio Dinis – Centro Hospitalar do Porto
  • Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca

Está prevista uma extensão das colheitas para outras maternidades do país, mas ainda não foram divulgados novos dados desde o início deste projeto.

Os profissionais de saúde que efectuam a colheita das células, receberam previamente formação pelo BPCCU. Se pretender saber mais informações acerca do processo de recolha das células para o BPCCU, aconselhamos que consulte a seguinte página do IPST.

Células Estaminais – Opiniões de especialistas – nacionais e internacionais

Algumas entidades internacionais, como a American Academy of Pediatrics, a American College of Gynecologists e a American Society of Blood and Marrow Transplantation, recomendam a doação das células do cordão umbilical a bancos públicos, e referem que os pais podem guardá-las aos bancos privados no caso de terem um criança doente e que possa beneficiar das células do cordão de um irmão/irmã.

Em Março de 2013, a Revista da Ordem dos Médicos publicou um parecer acerca deste assunto dado pelo Colégio de Genética Médica, que está transmitido de forma bastante clara e pode ser consultado neste link.

Procurámos saber a opinião de especialistas portugueses e que quiseram partilhar o que pensam acerca deste assunto connosco. Aqui fica o testemunho:

Drª. Joana Martins, Médica Especialista de Pediatria

“A utilização clínica de células estaminais é de facto uma possibilidade, mas a nível nacional, no período compreendido entre 1999 a 2017, foram realizados 86 transplantes heterólogos de células estaminais. Existem questões não esclarecidas no que toca à aplicação prática das células estaminais em algumas patologias. Mas acima de tudo, existem questões técnicas no que toca à qualidade de colheita, manuseamento e conservação das amostras. Vou dar um exemplo: existe um banco público de células estaminais em Portugal. Está sob a alçada do Instituto Português de Sangue e Transplantação. Este banco de células estaminais funciona desde 2013, mas a divulgação do seu trabalho, bem como o seu financiamento, ficam aquém do desejável. Para o banco privado, a taxa de aproveitamento de amostras, cuja colheita e manuseamento tiveram qualidade suficiente para ser criopreservadas é de apenas 11%. Estes mesmos dados, estrategicamente, não são divulgados pelas empresas privadas de criopreservação.

Assim, a minha opinião é bem concisa: criopreservar células estaminais? SIM! Mas num banco público, onde qualquer criança e adulto possam usufruir delas e tenhamos a certeza que as amostras foram devidamente avaliadas para a sua qualidade. Comprar um kit de colheita de uma empresa privada para este efeito? NÃO. Dificilmente teremos amostras com qualidade suficiente para serem usadas. E dificilmente essas amostras terão utilidade, já que o autotransplante ou transplante autólogo, não constitui uma estratégia terapêutica habitual para a maior parte das doenças hemato-oncológicas.”