fbpx
Carla Selas do Amaral
Escrito por:

Carla Selas do Amaral Arte Psicoterapeuta; Colaboradora do Banco do Bebé

Fui ao jardim da Celeste…giroflé, flé, flá | A importância da música no desenvolvimento do bebé

Quem não se lembra das cantigas de embalar? Nas quais havia “um pastorinho, que andava a pastorar”, umas galinhas que “Doidas, doidas” punham um ovo no buraquinho e até um “jardim da Celeste, giroflé, giroflá” onde havia sempre uma rosa. Cantávamos e dançávamos vezes sem conta até cansar e quando o João Pestana teimava em ficar, fechávamos os olhos e sonhávamos com uma estrelinha que nasceu e que “Brilha, brilha lá no céu”, enchendo-nos os sonhos de esperança.

Estas cantigas e outras fazem parte do nosso imaginário infantil. E sabíamos sempre que, no final, o pastorzinho saía de sua casa a cantar “Dó Ré Mi Fá Fá Fá”, a Joana comia a papa toda e no jardim da Celeste a rosa era sempre oferecida a quem mais gostávamos. Cantávamos alegre e inocentemente, sem percebermos a importância destas cantigas no nosso crescimento.

Cantávamos sem perceber que era com estas músicas que nos sentíamos calmos, que através destas músicas nos sentíamos aconchegados com a voz da nossa mãe, que nos envolvíamos na melodia ficando mais atentos ao que nos rodeava e que aprendíamos palavras, frases e até a contar as colheres de papa da Joana.

A nossa aptidão musical e a identidade sonora constroem-se a partir das primeiras experiências sonoras intrauterinas. Sabe-se que a formação da estrutura auditiva do bebé surge nos primeiros meses de gestação, fortalecendo uma relação muito íntima e sensível do ser humano com este sentido.

Nesse período, o bebé tem contato com a sua primeira referência de ritmo musical: o batimento cardíaco materno. Antes de nascer, o bebé já aprecia o batimento do coração da mãe, o timbre da sua voz e, após o sistema auditivo estar formado, todo o repertório musical e os sons que a mãe tem exteriorizado.

São muito comuns os relatos de mães sobre os movimentos e respostas dos seus bebés a estímulos sonoros específicos. A audição, assume um papel primordial nos primeiros processos cognitivos deste novo ser e continua, significativamente, como processo ativo no desenvolvimento integral da criança.

Para além dos benefícios sociais que a música nos proporciona, ela é também determinante no desenvolvimento de cada um de nós, nomeadamente ao nível do desenvolvimento cognitivo e motor, sendo por isso de grande importância a exposição do bebé a estímulos musicais desde cedo. 

De certo modo, os pais comunicam com os filhos através da música seja esta já existente ou composta no momento. Através das letras das canções, são transmitidas palavras e valores. 

Quando os pais adormecem os bebés ao som de canções de embalar ou quando brincam com eles, desenvolvem um jogo relacional, ensinando conteúdos, recorrendo a canções e rimas divertidas onde a “ Dona Chica ca, assustou-se se”. O bebé interage e sorri, surgindo um momento de grande harmonia e deslumbramento na relação com os pais. A música tem um papel fundamental no processamento da informação e na regulação do comportamento, mediando formas de estrutura de “afeto” ou de “representação de afeto”.

A música desenvolve o sentido auditivo, rítmico e corporal do bebé. Quando se trata de um ritmo mais acelerado, contribui para o desenvolvimento da atividade muscular, enquanto que a exposição a melodias serenas acalma e sossega o bebé. 

Na primeira infância, a criança vai construindo um repertório de sons sem sentido semântico, o “palrar”, que funciona como ponte entre escuta e fala, que ocorre ainda nos primeiros meses de vida. Conforme os estímulos aos quais a criança é exposta, o “palrar” pode assumir significado musical intencional. Nessas trocas musicais entre palrar, som, música e palavra são criados vínculos afetivos entre criança, pais e música.

Mais tarde, a música permite que a criança se expresse de forma individual, rica e criativa. Aperfeiçoa a sensibilidade estética e a capacidade criadora. Através do convívio com a música, as crianças tornam-se mais comunicativas e aprendem a conviver com as diferentes regras de socialização. Aprendem a criticar de forma construtiva, a ter disciplina e a ouvir e a interagir com o grupo.